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quinta-feira, 12 de abril de 2007

análise da "Dedicatória"

Dedicatória

6 E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitânia antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus (que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande);

10 Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quase eterno;
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvireis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.

11 Ouvi: que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas,
Que excedem as sonhadas, fabulosas,
Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro,
E Orlando, inda que fora verdadeiro.

Vós – refere-se a D. Sebastião; segurança: penhor da independência de Portugal; maura lança: exércitos mouros. Fatal: determinado pelo Destino; idade: tempo, época. superno: superior, supremo. Rodamonte: deformação de Rodomonte, personagem do poeta italiano Boiardo em Orlando Innamorato (séc. XV); Rugeiro: Ruggiero, personagem de Orlando Furioso, de Ariosto (poeta italiano, séc. XVI). Orlando: Roland, herói de Chanson de Roland séc. XI).


A dedicatória não era um elemento estrutural obrigatório do género épico, mas Luís de Camões decide dedicar o seu poema ao rei D. Sebastião, a quem louva pelo que representa para a independência de Portugal e para o aumento do mundo cristão; pela ilustre e cristianíssima ascendência e ainda pelo grandioso Império de que é senhor.

Aos louvores, segue-se o apelo. Referindo-se com modéstia à sua obra, que designa como “um pregão do ninho (...) paterno”, pede ao Rei que a leia. Na breve exposição que faz do assunto d’Os Lusíadas, o poeta evidencia um aspecto particularmente importante, a obra não versará heróis e factos lendários ou fantasiosos, como todas as epopeias anteriores, mas matéria histórica. Documenta-o nomeando alguns heróis nacionais que valoriza pelo confronto com os de outras epopeias.

Apesar dos versos não estarem transcritos no livro de leitura, termina o seu discurso incitando o Rei a dar continuidade aos feitos gloriosos dos portugueses, nomeadamente, combatendo os mouros, e renovando o pedido de que leia os seus versos.

O discurso da Dedicatória organiza-se, pois, segundo esta lógica — louvor, apelo de carácter pessoal e argumentos que o fundamentem, incitamento/apelo de carácter nacional e, em jeito de conclusão, breve reforço do apelo pessoal.

Há quem considere que esta parte do poema apresenta uma estrutura própria do género oratório: Um exórdio, que corresponde ao início do discurso (6 a 8); uma exposição ou corpo do discurso (9 a 11); uma confirmação, em que seriam apresentados exemplos e ou argumentos (12 a 14) e um epílogo ou conclusão (15 a 17). Veja-se ainda a utilização da segunda pessoa do plural (“vós”), do modo imperativo (“Ouvi”) e de numerosas apóstrofes (“ó bem nascida segurança” que também poderá ser considerada uma perífrase) e que são características da oratória.

Debruçar-me-ei apenas sobre as estrofes em análise.

No exórdio (6), o poeta dirige-se a D. Sebastião declarando-o: o enviado providencial para assegurar a independência de Portugal, continuando a obra da dilatação da fé e do império. Note a forma como o vocativo «vós» se desdobra em rasgados elogios: D. Sebastião é-nos apresentado como defensor nato da liberdade da Nação, como o continuador da dilatação da Fé e do Império, como o Rei temido pelo Infiel, como o homem certo no tempo certo, «dado ao mundo por Deus».

Na exposição (10, 11), o poeta pede a D. Sebastião que ponha os olhos no poema que desinteressadamente fez e lhe dedica, no qual ele verá os grandes feitos dos portugueses, reais e não fingidos, maiores do que os narrados nas antigas epopeias, de tal forma que o jovem rei se poderia julgar mais feliz como rei de tal gente do que como rei do mundo todo (hipérbole).

Note como o poeta desliga a glória de ser conhecido pela sua obra do «prémio vil», já que o moveu o «amor da pátria».

Veja a profusão de sinónimos para falsas proezas: vãs façanhas, fantásticas, fingidas, mentirosas, sonhadas, fabulosas. Tudo isto é suplantado pelas proezas «verdadeiras» dos Portugueses. Uma hipérbole que os últimos dois versos repetem.

O vocativo e o modo imperativo são as marcas mais notórias da função apelativa da linguagem. Vejamos, então, no texto, a frequência destas duas marcas: “E vós, ó bem nascida segurança...”, “ó novo temor da maura lança...” “Ouvi…” “Ouvi...”.

Os Lusíadas são fonte de glória para Camões pode ver-se nos quatro primeiros versos da estrofe 10, em que o poeta afirma que foi levado a escrever o seu poema, não pelo desejo de um prémio vil (material), mas de um prémio alto e quase eterno. Esse prémio é a fama de grande poeta entre os portugueses (ser conhecido por um pregão do ninho meu paterno).

O poeta exalta D. Sebastião como jovem rei destinado pelo Fado, ou pela Providência, a grandes feitos, num império já imenso, mas que ele acrescentaria ainda, dilatando a fé e o império (“para do mundo a Deus dar parte grande”).

O louvor de D. Sebastião está pois, em ser apresentado como um jovem-rei em que o povo português tudo espera, rei que a providência faz surgir para retomar a grandeza dos feitos portugueses. A ideia do jovem rei como salvador da pátria reflecte a crise em que a nação já se encontrava, mas ela estava lá tão arreigada no povo que não desapareceu da sua alma nem com a morte do rei. O sebastianismo é precisamente isso: a imagem de um rei fatalmente destinado a ser salvador de uma nação em crise.

análise dos poemas: "Chegada à Índia" , Elogio do espírito de cruzada" e "O poder do ouro"

Chegada à Índia

92 Já a manhã clara dava nos outeiros

Por onde o Ganges murmurando soa,

Quando da celsa gávea os marinheiros

Enxergaram terra alta, pela proa.

Já fora de tormenta e dos primeiros

Mares, o temor vão do peito voa.

Disse alegre o piloto Melindano:

«Terra é de Calecu, se não me engano;


93 «Esta é, por certo a terra que buscais

Da verdadeira Índia, que aparece;

E, se do mundo mais não desejais,

Vosso trabalho longo aqui fenece.»

Sofrer aqui não pôde o Gama mais,

De ledo em ver que a terra se conhece:

Os geolhos no chão, as mãos ao Céu,

A mercê grande a Deus agardeceo.


CANTO VII

Elogio do espírito de cruzada


3 Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,

Que o fraco poder vosso não pesais;

Vós, que, à custa de vossas várias mortes,

A Lei da vida eterna dilatais:

Assi do Céu deitadas são as sortes

Que vós, por muito poucos que sejais,

Muito façais na santa Cristandade,

Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!


14 Mas, entanto que cegos e sedentos

Andais de vosso sangue, ó gente insana,

Não faltaram Cristãos atrevimentos

Nesta pequena casa Lusitana.

De África tem marítimos assentos;

É na Ásia mais que todas soberana;

Na quarta parte nova os campos ara;

E, se mais mundo houvera, lá chegara.


CANTO VIII

O poder do ouro


96 Nas naus estar se deixa, vagaroso,

Até ver o que o tempo lhe descobre;

Que não se fia já do cobiçoso

Regedor, corrompido e pouco nobre.

Veja agora o juízo curioso

Quanto no rico, assi como no pobre,

Pode o vil interesse e sede immiga

Do dinheiro, que a tudo nos obriga.


97 A Polidoro mata o Rei Treício,

Só por ficar senhor do grão tesouro;

Entra, pelo fortíssimo edifício,

Com a filha de Acriso a chuva de ouro;

Pode tanto em Tarpeia avaro vício,

Que, a troco do metal luzente e louro,

Entrega aos inimigos a alta torre,

Do qual quase afogada em pago morre.


98 Este rende munidas fortalezas;

Faz tredores e falsos os amigos;

Este a mais nobres faz fazer vilezas,

E entrega Capitães aos inimigos;

Este corrompe virginais purezas,

Sem temer de honra ou fama alguns perigos;

Este deprava às vezes as ciências,

Os juízos cegando e as consciências;


99 Este interpreta mais que sutilmente

Os textos; este faz e desfaz leis;

Este causa os perjúrios entre a gente

E mil vezes tiranos torna os Reis.

Até os que só a Deus omnipotente

Se dedicam, mil vezes ouvireis

Que corrompe este encantador, e ilude;

Mas não sem cor, contudo, de virtude.



92

3— celsa: alta; gávea: cesto da gávea.

8— Calecu: Calecut ou calecute. Foi avistada a 17 de Maio de 1498.

93

5 — Gama mais: cacofoni.

3

4—Lei da vida eterna: religião de Jesus.

14

2— gente insana: refere-se aos povos europeus e aos povos antigos que se entregaram a guerras fratricidas.

4— casa Lusitana:

Portugal.

7 — Na quarta parte nova: na América (Brasil).

96

7— immiga: inimiga.

97

1 — Polidoro: filho de Priamo, rei de Tróia. Para salvá-lo, quando os Gregos estavam prestes a tomar a cidade, o rei mandou-o com ouro ao rei de Trácia, que o matou e se apoderou do ouro,

4—Ai-riso: Acrísio: rei grego de Argos, que prendeu a filha numa torre. Júpiter ai se introduziu sob a forma de chuva de ouro, transformando-a em mãe de Perseu, que veio a assassinar Acrísio.

5 — Tarpeia: rapariga romana, que abriu as portas da cidade aos Sabinos que a cercavam, na esperança de obter anéis de ouro. Acabará por ser esmagada sob as jóias e os escudos,

98

1 — Este: ouro.

2— tredores: traidores,

99

5/6 — Até os que só a Deus omnipotente/Se dedicam: perífrase de sacerdotes,

8 — não sem cor não sem aparência.

Chegada à Índia

Fora dos perigos e das dificuldades em que a tempestade os colocou, os marinheiros, à vista da Índia, deixam-se invadir pela alegria (estrofe 92).

Com a notícia da chegada a Calecute, Vasco da Gama, sem disfarçar o seu contentamento, ajoelha-se e agradece a Deus a mercê recebida (estrofe 93).

A descrição da euforia da chegada à Índia é muito curta, mas intensa.

Este pequeno texto desenvolve-se em três momentos:

a) os quatro primeiros versos da estrofe 92, em que os marinheiros, numa manhã luminosa (“clara”), lá do mais alto (“celso”) cesto de gávea, avistam a Índia;

b) os oito versos seguintes (segunda parte da estrofe 92 e primeira parte da estrofe 93), em que se enunciam as consequências imediatas do facto referido na primeira parte: o desaparecimento do medo (“o temor vão do peito voa”) e o discurso de confirmação do piloto Melindano;

c) nos quatro últimos versos, o Gama ajoelha e agradece a Deus a enorme graça concedida.

A tão esperada índia é avistada numa “menham clara”, o que nos prenuncia a esperança, perfigurada na manhã, e algo de bom, no vocábulo clara.

Podemos encontrar, em termos estilísticos, uma perífrase em “os outeiros por onde o Ganges murmurando soa” (=Índia), a personificação do Ganges “murmurando” e a adjectivação (“menham clara”, “celsa gávea”, “terra alta”). Na segunda parte podemos encontrar a imagem que se configura na expressão “o temor vão do peito voa”, porquanto se sobrepõem a aliteração em v, a metáfora (“voa”), a sinédoque (“do peito”) e a adjectivação expressiva (“vão”). Na estrofe 93, tanto a alternância rimática em “ais” e “e” como os adjectivos “alegre”, “verdadeira” e “longo” sugerem positividade. Na terceira parte, são de referenciar a antítese “chão/Céu” e a hipérbole “as mãos no céu”.

Elogio do espírito de cruzada

Percorrido tão longo e difícil caminho, é momento para que, na chegada a Calecute, o poeta faça novo louvor aos portugueses. Exalta, então, o seu espírito de Cruzada, a incansável divulgação da Fé, por África, Ásia, América, “E, se mais mundos houvera, lá chegara”, assim inserindo a viagem à Índia na missão transcendente que assumiram, e que é marca da sua identidade nacional. Por oposição, critica duramente as outras nações europeias por não seguirem o seu exemplo, no combate aos infiéis.

Na estrofe 14, Camões faz mesmo a comparação do comportamento dos portugueses com o dos outros países, daí resultando, mais uma vez, o elogio da “pequena casa Lusitana” que levava o Cristianismo aos outros países.

Estamos perante considerações do poeta que se podem integrar na mensagem global d’Os Lusíadas. O ideal renascentista apagou-se completamente no texto que estamos a analisar. Há claramente o elogio da luta proselitista pela difusão da fé cristã, levada pelos portugueses a todas as partes do mundo. Há a repetida incitação a todas as nações da Europa para que, deixando as lutas fratricidas, se lancem contra o inimigo comum - os muçulmanos. O ideal cavaleiresco que informa toda a acção central d’Os Lusíadas está aqui claramente expresso: exaltação dos sacrifícios de um povo para levar a cabo o seu maior objectivo — dilatação da fé e do Império (“se mais mundos houvera, lá chegara”).

Podemos destacar a nível estilístico a apóstrofe presente no primeiro verso da 3ª estrofe (“portugueses”), destinatários da mensagem do poeta, que apesar de serem poucos, são muito fortes,“ poucos quanto fortes” e “a lei da vida eterna” dilatam (perífrase), pois espalham a fé cristã. No último verso também podemos observar uma apóstrofe “ó Cristo”, entidade cristã, protectora dos portugueses, por lhes dever o favor da propagação da fé.

Na estrofe 14 o poeta contrapõe o resto dos povos europeus, através da adjectivação”cegos e sedentos” “gente insana” aos portugueses, elevando estes últimos a um estatuto de soberania “Mais que todas soberana”.

O poder do ouro

A propósito da narração do suborno do Catual e das suas exigências aos navegadores, são agora enumerados os efeitos perniciosos do ouro — provoca derrotas, faz dos amigos traidores, mancha o que há de mais puro, deturpa o conhecimento e a consciência; os textos e as leis são por ele condicionados; está na origem de difamações, da tirania de Reis, corrompe até os sacerdotes, sob a aparência da virtude.

Retomando a função pedagógica do seu canto, o poeta aponta um dos males da sociedade sua contemporânea, orientada por valores materialistas.

O receio e desconfiança de Vasco da Gama do “cobiçoso, regedor, corrompido e pouco nobre”(adjectivação) é-nos transmitido através do adjectivo “Nas naus estar se deixa vagaroso”, dando-nos a ideia de hesitação.

Estas reflexões do poeta contam-nos muito acerca do seu ponto de vista no que refere a dinheiro, ganância e corrupção.

Compara a atitude gananciosa à de Polidoro, Acriso e Tarpeia, que para se apoderarem do ouro foram capazes de grandes atrocidades.

Nas estrofes 98 e 99, o paralelismo anafórico, referente ao ouro, “Este”, serve para nos enumerar os efeitos danosos deste metal, opondo o bem ao mal.

Podemos ainda assinalar as hipérboles “E mil vezes tiranos torna reis” e “mil vezes ouvireis”, pois são mais um acréscimo para realçar esses efeitos daninhos.

Podemos dividir o texto em quatro partes: na primeira (estrofe 96) o poeta apresenta-nos a situação após a traição do Catual; na segunda (estrofe 97) são referidos exemplos ligados à corrupção provocada pelo ouro; na terceira (estrofes 98 e 99, exceptuando o último verso) há uma enumeração dos efeitos perniciosos do ouro; na quarta (último verso da estrofe 99) o poeta concorda que o ouro é um mal necessário, com as suas virtudes.

análise do poema "Baía de Santa Helena"

Baía de Santa Helena

25 À maneira de nuvens se começam

A descobrir os montes que enxergamos,

As âncoras pesadas se adereçam;

As velas, já chegados, amainamos,

E, pera que mais certas se conheçam

As partes tão remotas onde estamos,

Pelo novo instrumento de Astrolábio,

Invenção de sutil juízo e sábio,


26 Desembarcamos logo na espaçosa

Parte, por onde a gente se espalhou,

De ver cousas estranhas desejosa,

Da terra que outro povo não pisou.

Porém, eu, cos pilotos na arenosa

Praia, por vermos em que parte estou,

Me detenho em tomar do sol a altura

E compassar a universal pintura.


27 Achámos ter de todo já passado

Do Semicapro pexe a grande meta,

Estando entre ele e o círculo gelado

Austral, parte do mundo mais secreta.

Eis, de meus companheiros rodeado,

Vejo hum estranho vir, de pele preta,

Que tomaram, per força, enquanto apanha,

De mel, os doces favos na montanha.


Fernão Veloso

30 Mas, logo ao outro dia, seus parceiros,

Todos nus e da cor da escura treva,

Decendo pelos ásperos outeiros,

As peças vem buscar que este outro leva.

Domésticos já tanto e companheiros

Se nos mostram, que fazem que se atreva

Fernão Veloso a ir ver da terra o trato

E partir-seco eles pelo mato.


31 É Veloso no braço confiado

E, de arrogante, crê que vai seguro;

Mas, sendo hum grande espaço já passado,

Em que algum bom sinal saber procuro,

Estando, a vista alçada, co cuidado

No aventureiro, eis pelo monte duro

Aparece, e segundo ao mar caminha,

Mais apressado do que fora vinha.


32 O batei de Coelho foi depressa

Polo tomar; mas, antes que chegasse,

Um Etíope ousado se arremessa

A ele, por que não se lhe escapasse.

Outro e outro lhe saem; vê-se em pressa

Veloso, sem que alguém lhe ali ajudasse.

Acudo eu logo, e, enquanto o remo aperto,

Se mostra um bando negro descoberto.


33 Da espessa nuvem setas e pedradas

Chovem sobre nós outros, sem medida;

E não foram ao vento em vão deitadas,

Que esta perna trouxe eu dali ferida;

Mas nós, como pessoas magoadas,

A reposta lhes demos tão tecida,

Que em mais que nos barretes se suspeita

Que a cor vermelha levam desta feita.


34 E, sendo já Veloso em salvamento,

Logo nos recolhemos pera a armada,

Vendo a malícia feia e rudo intento

Da gente bestial, bruta e malvada,

De quem nenhum milhor conhecimento

Pudemos ter da Índia desejada

Que estarmos inda muito longe dela.

E assi tornei a dar ao vento a vela.


35 Disse então a Veloso um companheiro

(Começando-se todos a sorrir):

«Oula,Veloso amigo, aquele outeiro

É milhor de decer que de subir.»

«Si, é (responde o ousado aventureiro);

Mas, quando eu pera cá vi tantos vir

Daqueles Cães, depressa um pouco vim,

Por me lembrar que estáveis cá sem mim.»


25

— Se adereçam (v. 3.°) são preparadas.

— Astrolábio (v. 7.°): instrumento que permite calcular

a altura do Sol e, por isso, a latitude do lugar, onde

se faz a observação. — Novo, apenas no que respeita

à sua aplicação à arte de navegar.


26

- Compassar (v. 8.°): marcar com o compasso (a latitude do lugar) na carta. - Universal pintura: carta geográfica.

27

- Do semícapro Pexe... Do trópico de Capricórnio [Capricórnio é um signo representado por um ser que é metade cabra (Lat. capra) e metade peixe].

- Secreta: desconhecida.

— De meus companheiros.- Ag. da passiva.

30

- Vem (vêm) forma do v. vir.

— Domésticos: afáveis.

— O trato: os costumes.

31

- Arrogante: satisfeito com o que projectava executar.

— A vista alçada: observando os longes elevados.

32

— Coelho: Nicolau Coelho, comandante da caravela Bérrio.

— Polo tomar = por o tomar, para o tomar. — «O pronome arcaico lo, la, los, las, objecto directo de um infinitivo, combina-se na língua antiga com a preposição por, per, regente do mesmo infinitivo».

— Etíope: negro.

— Pressa (v. 5.°): aperto.

- O remo aperto (verbo apertar): estimulo, instigo os remadores. — Metonímia

33 - Tão tecida (v. 6.°): «tão ininterrupta como um tecido»

34 - Que (V. 7º) : senão

35 - Vs 4º, 7º e 8º - Ironia

36 – Reino escuro (v. 7º ): Inferno, morte.


Este episódio situa-se na narrativa de Vasco da Gama ao rei de Melinde, onde este continua a descrever a sua viagem, agora a chegada à Baía de Santa Helena e à utilização do astrolábio, instrumento novo, “Invenção de sutil juízo e sábio” que serve para “tomar do sol a altura” e, assim, determinar a localização.

Depois de desembarcados agarram um nativo, negro, “enquanto apanha, / De mel, os doces favos na montanha”, a quem dão bijutaria. No dia seguinte, outros vieram, tentando receber o mesmo. Eram pessoas afáveis e acolhedoras. Foi este o motivo para a intervenção de Fernão Veloso, com o intuito de recolher informações sobre a Índia. Crendo haver conquistado a confiança dos nativos, Fernão Veloso aventura-se a penetrar na ilha de Santa Helena. A certa altura, surge a correr a toda pressa, perseguido por vários nativos, tendo Vasco da Gama de ir em seu socorro, travando-se uma pequena luta entre eles, da qual saiu Vasco da Gama ferido numa perna. A resposta dos nautas ao ataque foi de tal forma exemplar que o narrador, Vasco da Gama, nos diz: «A reposta lhes demos tão tecida, / Que em mais que nos barretes se suspeita / que a cor vermelha levam desta feita.» A eficácia da reacção sai reforçada com o recurso à oração subordinada consecutiva e à hipérbole.

Regressados aos barcos, os marinheiros procuram gozar com Fernão Veloso, dizendo-lhe que o outeiro fora melhor de descer do que subir. Este, sem se desconcertar, respondeu-lhes que correra à frente dos nativos por se ter lembrado que os companheiros estavam ali sem a sua ajuda (estâncias 24-36). Isto denota a presença de um episódio irónico e humorístico, daí o seu carácter oralizante (“Oulá, Veloso amigo, aquele outeiro / É milhor de decer que de subir”), parecendo constituir uma ruptura com a seriedade sublime da exaltação épica dos heróis. É, no entanto, uma hábil forma de caracterizar uma faceta psicológica do homem português em momentos críticos: a audácia mais ou menos quixotesca e, se as coisas correm mal, a prontidão da resposta, de forma a nunca perder a face, mesmo que, para isso, se tenha de forjar desculpas mais ou menos esfarrapadas. O clímax irónico atinge-se na estrofe final, no saboroso diálogo que se estabelece entre Veloso e um companheiro, sendo de salientar a habilidade da resposta do ousado aventureiro”, sem acusar o toque, e mantendo a sua postura de “valentão” destemido. Interessa também salientar a expressividade da adjectivação: “arrogante”, “espessa nuvem”, “resposta (...) tecida”, “malícia feia e rudo intento / Da gente bestial, bruta e malvada”, “o ousado aventureiro”. O elevado número de nativos é dado pelo recurso ao nome colectivo: «um bando negro»; «espessa nuvem» «gente bestial». A sua malvadez é-nos dada através da adjectivação de valor pejorativo: «Malícia feia», «rudo intento»; «gente bestial, bruta e malvada». É ainda de referir a metonímia (“... enquanto o remo aperto”, estrofe 32, v. 7), a metáfora (“Da espessa nuvem setas e pedradas / Chovem sobre nós outros”), a aliteração em V (“... a cor vermelha levam desta feita”, estrofe 33, v. 8) e, finalmente, a utilização do discurso directo (estrofe 35) e de uma linguagem simples e coloquial que muito contribuem para criar as marcas de autenticidade que caracterizam este episódio.

Podemos considerar três momentos no desenvolvimento deste episódio:

a) a estrofe 31, em que se caracteriza o marinheiro Fernão Veloso (“no braço confiado”, “arrogante”) e rapidamente se insinua o que poderá ter acontecido e vir ainda a acontecer (‘Mais apressado do que fora, vinha”);

b) as estrofes 32-33, em que se relatam as dificuldades de Fernão Veloso, atacado pelos indígenas, e a escaramuça travada entre a armada e os locais;

c) finalmente, nas estrofes 34-35, faz-se o comentário do acontecido e trava-se um diálogo irónico entre Fernão Veloso e um companheiro, não perdendo aquele a oportunidade para, apesar de tudo, e contra o que seria de esperar, reincidir na sua fanfarronice.

É altura de remeter, de novo, para o texto de Maria Vitalina Leal de Matos, (p. 97), a propósito do valor renascentista de Os Lusíadas: «[…] importa reconhecer que as descobertas como tema da epopeia, além do mérito de serem um tema verídico, têm ainda outro: o da novidade. Constituem uma questão moderna, contemporânea, quiçá o efeito que melhor caracteriza a especificidade do Renascimento Europeu: a descoberta de novas terras, céus, mares, gentes, culturas.”


análise do poema "formosissíma Maria"

102 Entrava a fermosíssima Maria

Polos paternais paços sublimados,

Lindo o gesto, mas fora de alegria,

E seus olhos em lágrimas banhados.

Os cabelos angélicos trazia

Pelos ebúrneos ombros espalhados.

Diante do pai ledo, que a agasalha,

Estas palavras tais, chorando, espalha:


103 «Quantos povos a terra produziu

De África toda, gente fera e estranha,

O grão Rei de Marrocos conduziu

Pera vir possuir a nobre Espanha.

Poder tamanho junto não se viu,

Despois que o salso mar a terra banha;

Trazem ferocidade e furor tanto,

Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.


104 «Aquele que me deste por marido,

Por defender sua terra amedrontada,

Co pequeno poder, oferecido

Ao duro golpe está da Maura espada,

E, se não for contigo socorrido,

Ver-me-ás dele e do Reino ser privada;

Viúva e triste e posta em vida escura,

Sem marido, sem Reino e sem ventura.


105 «Portanto, ó Rei, de quem com puro medo

O corrente Muluca se congela,

Rompe toda a tardança, acude cedo

À miseranda gente de Castela.

Se esse gesto, que mostras claro e ledo,

De pai o verdadeiro amor assela,

Acude e corre, pai, que, se não corres,

Pode ser que não aches quem socorres.»


106 Não de outra sorte a tímida Maria

Falando está, que a triste Vénus, quando

A Júpiter, seu pai, favor pedia

Pera Eneias, seu filho, navegando;

Que a tanta piedade o comovia,

Que, caído das mãos o raio infando,

Tudo o clemente Padre lhe concede,

Pesando-lhe do pouco que lhe pede.


103

3—Rei de Marrocos: o emir Abul Haçan.

104

1 —Aquele: Afonso XI, Rei de Castela.

105

2 — Muluca: rio do Norte de África, que separava a Mauritânia da

Numídia.

6 — assela: confirma.

106

6 — infindo: que não se deve ou não pode dizer.

7— Padre: Júpiter.

102

6— ebúrneos: muito brancos e lisos.



A Fermosíssima Maria, filha de D. Afonso IV e rainha de Castela, foi quem suplicou a seu pai que ajudasse D. Afonso XI na luta contra os Mouros. Atendendo às suplicas de Maria, Afonso IV avança com o seu exército de modo a ajudar o seu genro.

Este episódio divide-se em três partes. A primeira parte (introdução), em que Maria entra “polos paternais paços sublimados“, e o poeta faz uma descrição física e psicológica utilizando recursos estilísticos como o pretérito imperfeito do indicativo para sugerir continuidade, a adjectivação, começado pelo superlativo absoluto sintético “fermosíssima”. A segunda parte constitui o discurso de Maria, em que ela apresenta argumentos, de ordem política e de ordem pessoal, para convencer o pai. Engrandece o poder do “grão rei de Marrocos” que “a vivos mete medo e a mortos faz espanto”, responsabiliza o pai pela sua situação futura: “Aquilo que me destes por marido / (…) ser privada”. Faz-lhe ver o pequeno poder de Castela: “Co pequeno poder, oferecido / Ao duro golpe da Maura espada” e chama a atenção para a sua situação de esposa, rainha e mulher. Põe em evidência a sua bravura: “Portanto, ó Rei, de quem com puro medo / O corrente do Muluca se congela”, apelando ao amor do pai: “Se esse gesto (…) / verdadeiro amor assela”. A gravidade da iminente invasão de Espanha pelos mouros é reforçada pela hipérbole «Trazem ferocidade e furor tanto, / Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.» Por fim, a terceira parte, representa uma conclusão em que o poeta compara a súplica de Maria junto do pai ao pedido de Vénus a Júpiter, para que este socorra Eneias. Há aspectos em que as duas figuras se aproximam: ambas suplicam ajuda ao pai, o estado de espírito em que se lhe dirigem são comoventes, ambas conseguem os seus objectivos. Há também aspectos em que se afastam. Maria afirma-se como esposa, filha e mãe, portanto, como mulher e figura histórica; Vénus, por outro lado, serve-se de todo o seu poder de Deusa do Amor e da sedução para influenciar o pai dos deuses.

Maria tem motivos de várias naturezas para pedir ajuda: pessoal: Maria pede ajuda para o marido e para conservar o seu Reino; apela ao amor de pai; a humanitária: Maria pede que o pai socorra a «miseranda gente de Castela» e a religiosa: Maria procura suscitar no pai o dever de combater o Infiel.

Repare, na est. 102, no emprego do imperfeito durativo e no modo como ele contribui para o visualismo da cena. A passagem desse imobilismo à acção, ou melhor, do silêncio à palavra, é dada pela mudança de tempo dos verbos, que surgem no presente do indicativo: «que a agasalha», «palavras tais [...] espalha» (vv. 7-8). Veja como, na estância 103, a mudança de tempo verbal (pretérito perfeito/presente) serve os propósitos de Maria: o passado recente (dominado pela reunião de um grande exército inimigo — w. 1-5) ameaça o seu presente («Trazem ferocidade e furor tanto»), deixando-a, como será dito na est. 104, caso o pai não ajude o marido (vv. 1-5), sem um futuro feliz: «Ver-me-ás dele e do Reino ser privada». Procure ver, na estância 105, as implicações do uso do imperativo na tensão dramática criada. Atente, finalmente, no emprego do gerúndio, associado ao imperfeito do indicativo, que domina a última estância. Esses tempos verbais estão relacionados com a ideia de continuidade da acção e com a insistência de Maria e de Vénus no pedido formulado. A apresentação hiperbólica do exército mouro, as consequências da invasão de Espanha para o marido, para ela própria e para as gentes de Castela e o apelo final ao amor de pai ajudam a criar uma tensão dramática que vão comovendo D. Afonso IV, que decide atender ao pedido da filha, conforme se depreende da última estrofe, por analogia com o caso de Júpiter e Vénus.

Discurso de Maria

— a est. 103 corresponde à introdução (a apresentação da situação);

—a est. 104 pode ser considerada como sendo o desenvolvimento (enumeração das consequências da invasão dos mouros, se o pai não ajudar o marido);

— a est. 105 corresponde à conclusão (a imperiosa necessidade da ajuda urgente do pai).